A cultura da cana-de-açúcar (Saccharum officinarum) é um pilar do agronegócio brasileiro, fundamental para a produção de açúcar, etanol e bioenergia. Em abril, o cenário agrícola do Nordeste é marcado pelo plantio das águas, enquanto no Centro-Sul os canaviais iniciam sua brotação, demandando atenção especial para o estabelecimento vigoroso da cultura.  

Neste contexto, a adoção de bioinsumos surge como uma estratégia inteligente para fortalecer o desenvolvimento inicial das plantas e garantir a sustentabilidade de todo o ciclo produtivo. 

O Brasil é líder mundial na adoção de bioinsumos, com crescimento médio anual de 22% nos últimos três anos, quatro vezes superior à média global. Na safra 2024/25, a cana-de-açúcar representou aproximadamente 12% do uso total de bioinsumos no país, segundo dados da CropLife Brasil. 

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Por que os bioinsumos são estratégicos para a cana-de-açúcar 

O agronegócio canavieiro enfrenta uma complexa gama de desafios: variabilidade climática, pressão de pragas e doenças, e necessidade de otimizar a nutrição vegetal. Os bioinsumos atuam de forma complementar aos métodos convencionais, impulsionando a saúde do solo e das plantas de maneira sistêmica, com menor impacto ambiental. 

 A fase inicial da cana — do plantio à brotação — é crítica para o estabelecimento da lavoura e para o potencial produtivo futuro. Problemas como baixo enraizamento, estresses hídricos e térmicos e incidência precoce de pragas e doenças podem comprometer significativamente o canavial. Microrganismos promotores de crescimento favorecem o desenvolvimento radicular e a absorção de nutrientes, minimizando esses riscos. 

Inoculantes na cana-de-açúcar: fixação biológica de nitrogênio 

 Os inoculantes à base de microrganismos colonizam a rizosfera e as raízes da cana, promovendo a fixação biológica de nitrogênio (FBN associativa), um processo que torna o N atmosférico disponível para a planta, podendo permitir redução parcial na aplicação de fertilizantes minerais. 

Bactérias diazotróficas: Gluconacetobacter diazotrophicus e Herbaspirillum seropedicae 

Entre as bactérias diazotróficas mais estudadas na cana destacam-se Gluconacetobacter diazotrophicus e Herbaspirillum seropedicae. Essas espécies colonizam internamente os tecidos da planta, incluindo caules, folhas e raízes, proporcionando uma fonte contínua e eficiente de nitrogênio, elemento essencial para o crescimento vegetativo e a formação de biomassa. 

Como funciona a fixação biológica de nitrogênio na  cana-de-açúcar 

As bactérias diazotróficas convertem o gás nitrogênio (N2) da atmosfera em formas assimiláveis pela planta, como amônia.  

Esse processo reduz a necessidade de fertilizantes nitrogenados sintéticos, diminuindo os custos de produção e o impacto ambiental, como a emissão de gases de efeito estufa. Além da nutrição, esses microrganismos podem produzir fitohormônios que estimulam o desenvolvimento radicular e a tolerância a estresses. 

Embrapa tem desenvolvido pesquisas com misturas de microrganismos promotores de crescimento que geram ganho de biomassa e melhoria na arquitetura radicular em cultivares de cana, contribuindo para maior absorção de nutrientes. 

Cana de açucar em zoom

Quando e como usar inoculantes no plantio e na rebrota da cana 

A aplicação de inoculantes é mais eficaz quando realizada no momento do plantio ou na rebrota, visando colonizar o sistema radicular o mais cedo possível: 

  • Plantio: imersão das mudas em suspensão dos inoculantes ou aplicação direta no sulco 
  • Rebrota: aplicação foliar ou via fertirrigação no início do ciclo, permitindo que os microrganismos alcancem as raízes em desenvolvimento 
  • Seguir rigorosamente as recomendações do fabricante quanto à dose, forma de aplicação e compatibilidade com outros insumos 

Bioativadores na cana: estímulo à brotação, ao enraizamento e ao desenvolvimento inicial 

Os bioativadores contêm substâncias que estimulam processos fisiológicos e metabólicos das plantas, promovendo ganhos em desenvolvimento radicular, absorção de nutrientes e resistência a estresses abióticos.  

Na cana, a aplicação no início do ciclo é crucial para assegurar uma brotação vigorosa e o rápido estabelecimento do canavial. 

Como os bioativadores atuam na fase de brotação e estabelecimento do canavial 

Durante a brotação, os bioativadores fornecem um impulso energético e hormonal às gemas, acelerando o surgimento de novos perfilhos e fortalecendo seu desenvolvimento.  

Eles otimizam a divisão celular e a expansão dos tecidos, resultando em um estande mais denso e homogêneo. No estabelecimento do canavial, esses produtos favorecem a formação de um sistema radicular robusto, essencial para a absorção eficiente de água e nutrientes. 

Leia mais: Produção sustentável de cana-de-açúcar e seus marcos 

Extratos de algas e aminoácidos: compostos com maior evidência para cana 

Os extratos de algas marinhas são ricos em fitormônios (auxinas, citocininas, giberelinas), vitaminas e micronutrientes, que promovem o crescimento e a resposta ao estresse.  

Os aminoácidos são unidades estruturais das proteínas e precursores de moléculas importantes, auxiliando a planta na recuperação de estresses e na otimização do metabolismo, resultando em maior vigor vegetativo. 

Biofungicidas e bioinseticidas na cana: controle biológico de pragas e doenças 

O controle biológico com biofungicidas e bioinseticidas é uma abordagem cada vez mais relevante para o manejo na cana. Aproximadamente 20% da área de cana no Brasil já incorpora manejo integrado com bioinseticidas ou biofungicidas modernos.  

Controle biológico da broca-da-cana (Diatraea saccharalis) 

A broca-da-cana (Diatraea saccharalis) é uma das pragas mais prejudiciais, com perdas econômicas anuais que ultrapassam R$ 8 bilhões no Brasil.  

O controle biológico pode ser realizado com fungos entomopatogênicos como Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae, que infectam o inseto por contato, penetrando em seu corpo e causando sua morte.  

A introdução do parasitoide Cotesia flavipes resultou em redução de perdas e diminuição do uso de inseticidas químicos. 

Manejo biológico da cigarrinha-das-raízes e da cigarrinha-das-folhas 

Para a cigarrinha-das-raízes (Mahanarva fimbriolata) e a cigarrinha-das-folhas (Mahanarva posticata), o fungo Metarhizium anisopliae tem mostrado excelentes resultados, controlando as ninfas no solo e os adultos na parte aérea.  

Biofungicidas no controle de podridões e doenças fúngicas no início do ciclo 

No início do ciclo da cana, doenças como a podridão-abacaxi (Ceratocystis paradoxa) podem comprometer a germinação e o estabelecimento da lavoura.  

Biofungicidas à base de Trichoderma spp. atuam por antagonismo, competição por nutrientes e parasitismo de fungos patogênicos, além de induzir resistência nas plantas.Para a podridão-vermelha (Colletotrichum falcatum), o Mais Agro destaca que áreas fortemente afetadas podem sofrer perdas de até 75% na recuperação de açúcar.  

O artigo sobre produtos biológicos no controle de doenças na cana detalha como biofungicidas à base de Bacillus subtilisB. velezensis e B. pumilus oferecem solução completa para o manejo integrado dessa doença. 

Principais bioinsumos para a cana-de-açúcar: alvos, mecanismos e fase de aplicação 

Tipo de bioinsumo Microrganismo / Composto Alvo agronômico Fase e método de aplicação 
Inoculante diazotrófico Gluconacetobacter diazotrophicus, Herbaspirillum seropedicae Fixação biológica de N2; enraizamento; fitohormônios Imersão de mudas ou sulco no plantio; foliar na rebrota 
Bioativador Extratos de algas, aminoácidos, ácidos húmicos Brotação vigorosa; enraizamento; perfilhamento; resistência a estresses Sulco de plantio e/ou foliar pós-brotação 
Biofungicida (Trichoderma) Trichoderma spp. Podridão-abacaxi (C. paradoxa); patógenos de solo TDM (tratamento de mudas) ou sulco de plantio 
Biofungicida (BacillusB. subtilis, B. velezensis, B. pumilus Podridão-vermelha (C. falcatum); doenças foliares Foliar preventivo; integrado ao manejo químico 
Bionematicida Bacillus velezensis (Certano) Nematoides e doenças fúngicas de solo; promoção de crescimento TS ou sulco de plantio 
Bioinseticida (fungos entomopatogênicos) Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae Broca-da-cana (D. saccharalis), cigarrinhas, bicudo-da-cana Pulverização preventiva; aplicação no solo para pragas de solo 

Veja também: Controle biológico no MIP: como funciona e quando usar 

Como integrar bioinsumos ao manejo convencional da cana-de-açúcar 

A integração de bioinsumos ao manejo convencional da cana-de-açúcar exige planejamento e conhecimento técnico para garantir que as tecnologias atuem de forma sinérgica. Nesse contexto, entender a compatibilidade com os defensivos químicos é essencial para evitar perdas de eficiência e potencializar os resultados no campo.

Compatibilidade entre bioinsumos e defensivos químicos usados na cana 

A compatibilidade entre bioinsumos e defensivos químicos é um aspecto crucial a ser considerado. Muitos bioinsumos são sensíveis a certos produtos químicos, o que exige atenção na escolha e na sequência das aplicações. De forma geral: 

  • Consultar as recomendações dos fabricantes e realizar testes de compatibilidade em pequena escala antes de misturas em larga escala 
  • Aplicações de bioinsumos em momentos distintos dos produtos químicos mais agressivos, ou optar por defensivos com menor impacto sobre microrganismos benéficos 
  • Conforme destaca o Mais Agro, o manejo químico associado ao biológico se tornou a porta de entrada para maior sustentabilidade e manutenção dos tetos produtivos 

Sequência de aplicações: do plantio à brotação 

Uma sequência de aplicações bem planejada é essencial para o sucesso do manejo integrado: 

  • Plantio: tratamento de mudas (TDM) com inoculantes diazotróficos + biofungicidas (Trichoderma); aplicação no sulco de bioativadores e bionematicidas 
  • Brotação e perfilhamento: aplicações foliares de bioativadores para estimular o perfilhamento e o desenvolvimento do sistema radicular 
  • Manejo de pragas e doenças: aplicações de bioinseticidas (Beauveria, Metarhizium) e biofungicidas (Bacillus) de forma preventiva conforme o monitoramento 

A integração de biológicos ao manejo reativa a vida no solo com microrganismos que desempenham diversas funções: reciclagem de nutrientes, desenvolvimento da microbiota e benefício direto para o desenvolvimento dos vegetais. 

Bioinsumos na cana em abril: estratégias por região do Brasil 

Região Situação em abril Prioridade de bioinsumos Principais aplicações 
Nordeste Plantio das águas: novas lavouras sendo implantadas Inoculantes diazotróficos + biofungicidas no TDM + bioativadores no sulco TDM com Trichoderma e bactérias diazotróficas; bioativador no sulco 
Centro-Sul Início da brotação dos canaviais estabelecidos Bioativadores para perfilhamento + monitoramento e controle de pragas de início de ciclo Foliar de bioativador pós-brotação; bioinseticida preventivo para broca e cigarrinha 

Bioinsumos na cana: um investimento que se paga ao longo do ciclo 

O uso integrado de bioinsumos desde o início do ciclo é a estratégia que maximiza os benefícios ao longo de toda a safra. A Universidade Federal de Viçosa aponta que a aplicação de bioinsumos na cana pode aumentar a produtividade em até 15% e reduzir o uso de defensivos químicos em até 30%, validando a eficácia do manejo biológico integrado.

A aplicação consistente de bioinsumos, como parte de um programa que considera as especificidades regionais e os desafios de cada fase, contribui para um canavial mais produtivo, resistente e sustentável. 

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